Sábado, 18 de Julho de 2009


Samba



Foi na quadra da Portela
que eu encontrei uma bela mulata.
Na feijoada da tia Surica,
vinha meu coração em desalinho,
por ela se apaixonar.

Vinha sambando à frente da bateria,
com seus surdos e chocalhos a lhe acompanhar.
A fantasia diminuta contrastava
com o salto da sandália de prata que trazia nos pés.
Meu coração apenas dizia:
"Ai meu deus, que bela mulata!"

Tentei tango, bolero e valsa,
mas é para a quadra da Portela que a mulata vai.
Tentei pagode, merengue e salsa,
mas é no samba que minha nega cai.

Para: Carol, portelense das boas.
Texto: próprio
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Segunda-feira, 13 de Julho de 2009


Delírio



Sentia na boca um gosto de febre que não se parecia com nenhum outro gosto que já conhecia. Não saia à pasta de dentes ou bochecho. Tentou café, chocolate e pimenta. Não amargou, adoçou, nem ardeu. A língua nos lábios não era capaz de cessar o gosto de febre. Era um gosto dolorido, quente e seco, arredio a qualquer tentativa de trocá-lo. O que enunciaria a febre, resistente até mesmo ao beijo? Talvez viesse a delirar.


Texto: próprio
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009


Nova York



Sorriu já ao subir a rampa de acesso ao salão. Não prestava atenção, mas já sorria a possibilidade de voltar a vê-la. Estaria também muito mudada? Eu já não era aquele menino de antes, das brincadeiras expansivas e de uma contraditória mas amorosa brutalidade. Débora não devia ser mais a mesma menina tímida também. E por que agora, tudo de novo? Havia ainda o que ser dito? o que ser feito? o que ser lembrado? Não tinha qualquer resposta para essas perguntas; na verdade, não havia qualquer pergunta antes de Débora ressurgir como uma mensagem na secretária eletrônica. Estava no Rio e queria me ver, foi tudo o que disse. No Rio? Ah, sim, há alguns anos Débora foi estudar artes plásticas em Nova York. Vinha de férias, pensei, e queria uma lembrança da infância a lhe refrescar uma memória brasileira que talvez fosse importante conservar. E por que eu? Não posso precisar qualquer resposta, mas talvez eu seja o único que não tenha mudado o número de telefone depois de tantos anos. Depois de um tempo, me desfiz de quaisquer perguntas, não encontraria solução possível para nenhuma delas. Bastava que Débora quisesse me ver assim, mudado pelo tempo, e que talvez eu mesmo quisesse vê-la outra vez. Nova York muda muito as pessoas.


Texto: próprio
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